Freud e o superpoder do humor
- carloslyma
- 25 de jul. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 30 de jul. de 2025
Por Carlos Lima

Freud não foi apenas o criador da teoria/técnica psicanalítica, mas também um astuto cientista do espírito humano, capaz de encontrar força e beleza justamente onde menos se espera: no humor.
Sigmund Freud escreve 'O humor' em 1927, e o faz com uma elegância incomum. Ao invés de ver o riso como superficial ou banal, ele nos revela ali uma das manifestações mais sofisticadas e poderosas da psique humana.
Quem diria que, no coração da dor, pode também morar uma forma de resistência?
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A cena que Freud apresenta em seu texto é perturbadora e comovente. Um condenado rumando ao cadafalso, visualiza sua forca e diz: “Bem, ótima maneira de começar a semana”. Que tipo de mente seria capaz de formular uma ironia dessas às portas da morte?
Para Freud, é o tipo de mente que não se curva ao inevitável sofrimento. O humor, aqui, é mais do que um comentário espirituoso: é um gesto de triunfo. Um não categórico à submissão.
A psique, ferida mas não vencida, se levanta, enxuga as lágrimas e, contra todas as probabilidades, ri e faz rir.
“O eu se recusa a sofrer; insiste em que os traumas do mundo exterior não o atinjam; mostra, antes, que eles são para ele fontes de prazer”.
Nesse instante, é que se constata a “invulnerabilidade do eu”. Ao que Freud afirma com maestria:
“O extraordinário está ligado, claramente, ao triunfo do *narcisismo¹, à afirmação vitoriosa da invulnerabilidade do eu.”
O que se mostra ali é uma faísca de grandeza interior. A realidade continua cruel, contudo o sujeito consegue rir dela, não por ignorância — mas porque, mesmo sabendo tudo, se recusa a ceder.
Esse humor não é fuga, é coragem!
É um trabalho do eu consigo mesmo. Uma forma de manter-se em pé, mesmo quando tudo ao redor desaba.
É por isso que Freud diz que o humor “não é conformação, mas um desafio”. E esse desafio é amparado pela instância moral — o superego (sim, pasmem!) — ele que é mais famoso por sua face coercitiva, implacável, o sempre presente juiz interno— desta vez, não para julgar e punir, senão para aliviar e cuidar, função positiva herdada de pai/mãe.
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O humor, para Freud, está entre as maiores das capacidades humanas. Uma vitória sutil, sem aplausos. Um murmúrio interior categórico: Isso não irá destruir, não desta vez.
Ao final do texto, ele afirma que o humor “é uma dádiva preciosa, um dom raro e valioso”. Rareia, talvez, porque exige desprendimento, uma relativização da imagem idealizada de si mesmo. Valioso, pois transforma o sofrimento sem negá-lo. Sublima sem se afastar da verdade.
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Freud nos oferece, aqui, uma lição surpreendente. Aquilo que nos salva não é negar a dor — mas saber lidar com ela com certo grau de elegância psíquica, sim, na maioria das vezes não é possível reagir com finura e o bom humor não se encontra aí.
Ao rirmos conscientemente de nós mesmos, experimentamos aquela estranha leveza. Algo se eleva. Algo se protege. Algo permanece.
“Olhem! Aqui está o mundo, que parece tão perigoso! Não passa de um jogo de crianças, digno apenas de que sobre ele se faça graça!”
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Noutro momento, talvez valha retomar essas reflexões em interlocução com Winnicott — autor que tanto admiro por evidenciar criatividade e autenticidade com rara sensibilidade e autoridade. Mas essa já é outra conversa.
Por ora, fiquemos com Freud — e com esse rir que, longe de ser apenas alívio, é afirmação da própria vida.
Paz & Bem!
¹Narcisismo aqui citado, não é ao que se refere o senso comum, este patológico. Trata-se do natural investimento no "eu", condição 'sine qua non' ao suficientemente bom desenvolvimento psíquico.
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