Culpa, cansaço e a fadiga de ter que ser alguém o tempo todo
- carloslyma
- 16 de jan.
- 2 min de leitura

Muitas pessoas não chegam à análise dizendo que estão deprimidas.Chegam dizendo que estão cansadas.
Cansadas de pensar demais.Cansadas da autovigilância.Cansadas de nunca descansar dentro de si.
Há, em muitos desses casos, uma engrenagem silenciosa em funcionamento: um superego (juiz interno) exigente, frequentemente confundido com consciência moral, maturidade ou até religiosidade. Um superego que não grita, todavia cobra, uma voz sutil que não descansa até ser ouvida. Que não proíbe, porém compara. Que não pune com violência, mas com culpa.
Essa culpa raramente aparece ligada a um ato concreto. Ela é mais difusa. O sujeito não se sente culpado por algo que fez, mas por não ser o suficiente. Não estar à altura. Não corresponder ao ideal que ele mesmo construiu — ou herdou. É aí que o chamado ideal de eu entra em cena: uma imagem construída, incorporada e ao mesmo tempo, absolutamente, inalcançável. Exigente, lhe pede sempre mais, que seja mais produtivo, mais equilibrado, mais forte, mais espiritual, mais feliz. Sempre mais. Insaciável como o fogo, devora tudo e padece faminta.
O problema não é ter ideais.O problema é quando viver passa a ser apenas uma forma exaustiva de tentar alcançá-los.
Nesse ponto, a ansiedade costuma aparecer como sinal de alerta: o corpo dizendo que algo está em excesso. Pensamentos acelerados, tensão constante, dificuldade de descanso, e o medo; medo de errar, medo de falhar, medo de decepcionar.
Quando isso se prolonga e a pessoa passa anos tentando sustentar uma versão idealizada de si mesmo, algo começa a ceder. O entusiasmo diminui. O prazer é empobrecido. O mundo perde cor. E então surge algo que muitos relutam em nomear: uma depressividade discreta, às vezes elegante, filosófica, mas profundamente exaustiva.
Na clínica, vejo com muita frequência pessoas inteligentes, responsáveis, éticas, funcionais — e demasiadamente duras consigo mesmas. Pessoas que aprenderam cedo a se adaptar, a corresponder, a não dar trabalho. Pessoas que nunca se permitiram falhar sem se odiar um pouco mais por isso.
A psicanálise não promete eliminar a culpa. Nem destruir o superego.Ela oferece algo mais simples — e mais difícil: escutar de onde vem essa voz que cobra tanto, oportuniza um olhar panorâmico sobre a raiz do problema.
Com o tempo, quando essa escuta acontece, algo pode se deslocar.
O sujeito começa a distinguir exigência de si mesmo, que encontra seus correspondentes na cultura de uma sociedade de consumo.
Autopunição travestida de responsabilidade, afinal, é preciso crescer.
Muitas e muitas vezes, num processo psicanalítico, acontece pela primeira vez, a descoberta de que existe muita vida fora da roda viva do desempenho e do sucesso.
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