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Por que não consigo relaxar? Quando parar não significa descansar

1 de out.
6 min de leitura

Sala ao fim da tarde com poltrona, sofá, plantas e janela.

Há pessoas que chegam ao fim da semana esperando uma espécie de libertação. Na sexta-feira, o trabalho termina e surge aquela sensação conhecida: finalmente vou descansar. O sábado passa entre compromissos, encontros, alguma bebida, uma série, o celular, pequenas tarefas que precisavam ser resolvidas. No domingo, porém, algo começa a mudar. À tarde ainda é possível aproveitar. No fim dela, porém, a noite se aproxima e, quando chega, a segunda-feira começa a aparecer antes mesmo de chegar. É a conhecida melancolia do domingo.

A semana ainda nem começou, mas alguma coisa já se anuncia: o trabalho, as obrigações, as cobranças, aquilo que ficou por fazer, aquilo que precisará ser enfrentado novamente.

Algumas pessoas percebem isso com clareza. Outras sentem apenas uma inquietação difícil de explicar.

E há aquelas que chegam a uma conclusão bastante curiosa: Eu não consigo relaxar. Não se trata necessariamente de estar diante de um grande problema. Às vezes, é justamente o contrário. Surge uma dificuldade natural da vida: um problema em casa, uma questão familiar, uma preocupação financeira, uma contrariedade no trabalho. Algo que, objetivamente, deverá ser resolvido.

Mas a reação parece grande demais.

Uma preocupação se transforma em várias. Um problema traz à consciência outros problemas. A cabeça dispara. O corpo permanece em alerta. O que parecia ser apenas mais uma questão da vida cotidiana abre, de repente, uma espécie de passagem para uma ansiedade muito maior.

E então surge uma pergunta que merece ser levada a sério: Por que uma situação relativamente pequena pode despertar uma ansiedade tão grande?

É possível que nem toda a ansiedade que sentimos tenha começado naquele momento.

Quando o problema atual parece abrir uma porta

Há uma diferença importante entre dizer que determinado acontecimento produziu toda a ansiedade e pensar que ele pode ter despertado algo que já estava em curso.

Um problema atual pode ser concreto, limitado e administrável. Ainda assim, sua repercussão psíquica pode ultrapassar em muito aquilo que aconteceu.

É como se o acontecimento presente encontrasse alguma coisa já existente no sujeito.

Não precisamos imaginar, de maneira simplista, que exista um conteúdo escondido esperando para ser descoberto. A vida psíquica é mais complexa do que isso. Uma mesma situação pode adquirir significados muito diferentes para sujeitos diferentes.

Para alguém, é apenas um contratempo; para outro, pode tocar em medo de perder o controle, medo de fracassar, culpa, exigência, desamparo ou ameaça à imagem que construiu de si mesmo.

Por isso, não é necessariamente o tamanho do problema que explica o tamanho da angústia, mas aquilo que o problema representa para aquele sujeito.

Essa diferença é fundamental do ponto de vista psicanalítico.

A ansiedade que chega antes do acontecimento

A experiência do domingo à noite ajuda a perceber algo semelhante.

A segunda-feira ainda não chegou, mas a ansiedade já está presente.

Não dependemos necessariamente de um perigo atual para experimentar angústia. A antecipação de uma situação futura já pode mobilizar o corpo e o pensamento.

Freud, em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), reformula sua concepção da angústia e passa a concebê-la também como um sinal diante de uma situação de perigo. Esse perigo não se reduz a uma ameaça externa imediata. Uma situação atual pode adquirir, para aquele sujeito, um significado que remete a experiências anteriores, expectativas e fantasias.

É por isso que duas pessoas podem atravessar o mesmo acontecimento de maneiras tão distintas.

O acontecimento é o mesmo. A experiência psíquica não é.

Mas por que é tão difícil descansar?

Estamos acostumados a pensar no descanso como o contrário do trabalho.

Trabalhar cansa; descansar recupera.

Isso pressupõe que o sujeito consiga, de fato, passar de um estado para outro, mas nem sempre consegue.

Há pessoas que chegam ao fim de semana e simplesmente continuam em atividade. Se não estão trabalhando, estão resolvendo alguma coisa. Se não estão resolvendo, estão assistindo a alguma coisa. Se não estão assistindo, estão no celular.

O silêncio precisa ser rapidamente preenchido.

O fenômeno contemporâneo tornou isso ainda mais acessível. Séries estão disponíveis imediatamente. Um episódio termina e o próximo começa. Música, vídeos, redes sociais, mensagens, notícias e entretenimento estão permanentemente ao alcance dos dedos.

Nada disso é, em si mesmo, patológico. Assistir a uma série pode ser simplesmente prazer, beber uma taça de vinho pode ser simplesmente prazer, sair para jantar, encontrar amigos, ouvir música, viajar ou passar horas vendo um filme podem ser formas legítimas de lazer.

A questão psicanalítica é outra: Que função determinada atividade desempenha para determinado sujeito?

O mesmo comportamento pode ser prazer para uma pessoa e uma maneira de evitar certa experiência para outra.

A função psíquica não está no objeto em si, mas na relação que o sujeito estabelece com ele.

“Sextar” e a necessidade de marcar a passagem

Não é por acaso que inventamos uma expressão como “sextar”.

A palavra é divertida e revela alguma coisa. A chegada da sexta-feira tornou-se um acontecimento em si mesmo: finalmente o sujeito pode deixar para trás aquilo que o manteve sob tensão durante a semana.

Há uma espécie de ritual de passagem. Sextou!

Agora pode. Agora é permitido relaxar.

Pode ser apenas uma maneira divertida de falar do fim da semana. Em alguns casos, porém, pode revelar o tamanho da tensão que vinha sendo acumulada.

E então chega a segunda-feira, a “segunda-feira brava”, e a passagem parece ocorrer no sentido inverso.

O corpo volta ao trabalho, a rotina retorna, as exigências reaparecem.

Há pessoas que não têm exatamente um período de descanso.

Podem ter apenas uma interrupção temporária daquilo que as mantém tensas.

Quando parar não significa descansar

Essa diferença merece atenção.

É possível parar de trabalhar sem descansar psiquicamente, estar sentado no sofá e continuar em estado de alerta, estar de férias e continuar preocupado.

É possível ter uma tarde inteira livre e sentir culpa por não estar fazendo coisa alguma.

É possível ter realizado tudo aquilo que precisava ser realizado e, ainda assim, sentir uma inquietação que não encontra um nome.

Nesse ponto, a pergunta deixa de ser apenas: Por que estou ansioso?

e passa a ser: O que acontece comigo quando não preciso fazer nada?

Eis aí uma pergunta difícil.

Porque o problema não está apenas no excesso de coisas que temos de fazer. Pode haver uma dificuldade em permanecer diante daquilo que aparece quando, finalmente, não há nada urgente para fazer.

Estar sozinho não é necessariamente estar só

Winnicott dedicou um de seus textos mais conhecidos àquilo que chamou de capacidade de estar só. E isso não significa simplesmente ficar fisicamente sozinho.

Para Winnicott, essa capacidade se constitui a partir de uma experiência suficientemente boa de estar só na presença de alguém, isto é, de poder existir sem precisar estar permanentemente ocupado pela presença ou pela demanda do outro. Não se trata, portanto, de isolamento nem de autossuficiência.

É justamente por isso que descansar pode ser psicologicamente mais complexo do que parece.

O repouso reduz a quantidade de exigências externas. E, quando isso acontece, alguma coisa da vida interna pode ganhar mais espaço.

Às vezes aparecem pensamentos que estavam sendo adiados, às vezes aparece tédio, às vezes culpa, um vazio.

Às vezes, uma inquietação que não encontrava tempo para se manifestar.

É possível que algumas pessoas não consigam simplesmente “desligar” não porque exista necessariamente algum grande problema escondido, mas porque parar também significa entrar em contato com uma experiência interna que, durante o ritmo acelerado do cotidiano, permanece menos perceptível.

O que aquela situação despertou?

Voltemos, então, àquela pequena ocorrência que desencadeou uma enorme reação.

Um problema familiar, uma discussão, uma cobrança, um contratempo financeiro, uma falha no trabalho.

Algo que precisava ser resolvido.

A questão psicanalítica não está em afirmar imediatamente: “Você ficou assim por causa de algum trauma.”

Essa seria uma interpretação rápida demais.

A pergunta é mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil: Por que isso teve esse efeito em mim?

Por que essa situação me desorganizou tanto?

Por que para outra pessoa parece ser apenas um inconveniente e, para mim, aquilo parece transformar-se numa catástrofe?

O que esse acontecimento tocou?

Por que determinadas situações produzem em mim uma espécie de avalanche silenciosa?

Essas perguntas não possuem respostas universais. É justamente por isso que a análise não funciona como uma lista de explicações prontas.

O mesmo acontecimento pode tocar sujeitos diferentes de maneiras inteiramente diferentes.

A investigação precisa acompanhar a história singular de cada um.

É compreensível desejar que a ansiedade passe.

Quando ela aperta, queremos alívio. Queremos que a cabeça pare. Queremos dormir. Queremos voltar ao normal.

Mas a psicanálise pergunta mais profundamente.

Não apenas: Como faço para eliminar minha ansiedade?

Mas: O que esta ansiedade está dizendo sobre mim que eu ainda não consigo escutar?”

Não se trata de romantizar o sofrimento nem de dizer que toda ansiedade contém uma mensagem perfeitamente decifrável. Trata-se de reconhecer que aquilo que sentimos nem sempre coincide com aquilo que conscientemente sabemos sobre nós mesmos.

Posso saber, racionalmente, que um problema doméstico será resolvido amanhã e, ainda assim, passar a noite em estado de alerta.

Posso saber que segunda-feira é apenas mais uma segunda-feira e, ainda assim, sentir o domingo terminar como se algo ameaçador estivesse prestes a acontecer.

Posso desejar descansar e, quando finalmente tenho tempo, descobrir que não consigo.

É justamente aí que surge a pergunta propriamente psicanalítica: O que há nessa situação que fala sobre mim?

O que ela despertou?

O que ela reativou?

O que eu temo perder?

O que preciso controlar?

O que aparece quando, finalmente, eu paro?

Descansar pode não ser apenas ter menos coisas para fazer. Pode significar também permanecer algum tempo diante de si mesmo sem precisar imediatamente preencher o espaço.

E é nesse espaço — entre aquilo que acontece fora e o que acontece dentro — que a ansiedade pode começar a ser escutada de uma nova maneira.

 
 
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